#Dicas de escrita – Os sentidos

amanda vieira

Quer saber por que um filme nunca vai ser tão bom quanto o livro do qual foi adaptado? Essa resposta tem a ver com os sentidos, e é sobre eles que vamos falar. Por mais que um cinegrafista seja excelente, ele não vai conseguir chegar tão perto dos sentimentos e motivações de um personagem quanto o escritor.

Então o que acontece quando assistimos a uma adaptação é parecido com ir ao seu restaurante favorito depois de passar no dentista. Você pede aquela massa suculenta e não pode degustá-la plenamente porque está anestesiado :(

Em um livro, é possível mostrar o que seu personagem vê e como se sente em relação a isso, seus medos e suas dúvidas, o cheiro que um lugar tem, quão áspero ou delicado é aquilo que ele toca, o som ou silêncio de um ambiente, o prazer ou desgosto com algum sabor. Uma câmera dificilmente pode fazer o seu leitor sentir as emoções como o próprio personagem.

É, meu amigo escritor, os sentidos são verdadeiramente uma arma poderosa. Use-a! Não permita que seu leitor seja anestesiado.

Vou dizer algo francamente pra você, quanto mais sentidos usar mais viva a sua cena se torna. Como regra, posso afirmar que o leitor vai formar espontaneamente uma imagem e senti-la real se você usar no mínimo três sentidos ( E estou sendo bastante generosa) ;)

Vou usar um trecho do meu livro “O Vale das Borboletas” como exemplo, e ao ler, sinta-se obrigado a descobrir os sentidos que tornaram a descrição mais real.

Passamos no meio das borboletas que dançavam em volta de nós, o som dos pássaros parecia anunciar nossa chegada e caminhamos por um tapete verde que se acabava em uma piscina natural. Também havia uma pequena gruta cercada por samambaias que servia de abrigo quando a chuva chegava sem avisar. Lavamos as mãos na água, a temperatura estava mesmo ideal para o banho.

Que sentidos você conseguiu perceber? O som dos pássaros (audição); a temperatura da água (tato); as borboletas, a grama, a gruta, as samambaias (visão). Eu disse que você ia precisar usar no mínimo três sentidos, mas agora que você sabe disso preciso dizer que não é tão fácil assim.

Perceba que a visão é o sentido mais usado, mas nem por isso o mais fácil. Tem que haver uma sincronia e uma interação maior desse sentido para que a cena não fique sobrecarregada. Quando cito as borboletas estou brincando com um dos instintos mais poderosos do ser humano e de qualquer animal. Somos naturalmente atraídos por movimento porque estamos biologicamente programados para pensar que ou é um perigo potencial ou comida. Então, ao invés de colocar adjetivos coloque movimento, esse instinto nunca falha. Note que a ideia de movimento está em toda a descrição.

Outro truque fatal, que vai tornar a sua imagem definitivamente viva, é mostrar como ela continua existindo mesmo se o seu personagem ou leitor não estiverem nela. Quando cito a chuva estou  dando alma ao lugar que criei. Ele é mutável. O meu leitor consegue vê-lo de outro panorama. Ele muda com o tempo, com as estações. Você pode dizer como algo foi no passado ou como será no futuro, brique com a sua cena, faça com que ela seja memorável para seu leitor.

Isso foi muito pouco perto de tudo que você pode fazer com os sentidos, agora você precisa ser esperto e descobrir todas as outras possibilidades. E tenha em mente que deixar seu leitor anestesiado vai ser bastante frustrante ;)

Compartilhar conhecimento é multiplicar o que a gente sabe =D

Beijos no coração e comentários são sempre bem-vindos <3